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Ciência em praça pública
Entrevista - Folha Dirigida - 28/09/2007
DÉBORA THOMÉ
A partir da próxima segunda, 1º de outubro, a ciência será debatida em praça pública, como nos velhos tempos. Até o dia 7, em todo o país, acontecerá a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2007. Instituições de pesquisa, universidades, escolas, órgãos governamentais, ONGs, empresas, entre outros, coordenados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), promoverão centenas de atividades de divulgação da ciência.
Criada em 2004, a Semana cresceu muito. No ano passado, contou com a participação de mais de mil instituições de ensino e pesquisa e com 8.654 atividades, em 363 cidades. "Terra" é o tema da Semana Nacional deste ano. A escolha levou em conta a convocação internacional, feita pela ONU, para que a questão global da Terra seja considerada como tema prioritário para os anos de 2007/2008.
Em todos os cantos, em praças públicas e em instituições de ensino e pesquisa, serão realizados eventos que venham a contribuir para aproximar as atividades científicas da população em geral e de crianças e jovens, em particular. À frente da organização do evento, desde sua primeira edição, está o físico Ildeu de Castro Moreira.
Diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), o professor Ildeu sempre foi um dos maiores defensores da popularização da ciência no país. Nesta entrevista à FOLHA DIRIGIDA, o físico faz um balanço do trabalho desenvolvido pelo seu departamento na esfera federal e volta a defender a idéia de que divulgação científica "não é problema só do governo, mas de toda a sociedade".
Prestes a iniciar sua quarta edição, que balanço pode ser feito sobre a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia?
Ildeu de Castro Moreira - A semana foi criada em 2004. A fizemos, no primeiro ano, em caráter experimental. Não tínhamos, naquele momento, nenhuma experiência. Foi feita uma preparação em três meses; mas nós nos arriscamos a fazer mais como experimento, e percebemos que funcionou. Tivemos atividades em praticamente todos os estados e atingimos um número relativamente grande de municípios e atividades. No ano seguinte, tivemos mais experiência. Começamos a fazer o tablóide; este é o terceiro ano. Temos o programa "Ver Ciência", que distribui vídeos científicos para o Brasil inteiro. O número de atividades foi crescendo. Em 2006, conseguimos levar o evento a cerca de 360 cidades, e perto de mil instituições de pesquisa, escolas e universidades participaram. Já temos um balanço muito favorável no sentido de que houve uma mobilização muito grande nesses três primeiros anos.
Houve, ao longo desses anos, alguma melhora significativa na receptividade ao evento e na colaboração da comunidade científica?
Com relativamente pouco recurso, com pouca experiência — e a máquina pública às vezes tem dificuldade de trabalhar com o tempo, e nós precisamos definir coisas com rapidez —, a Semana é coordenada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, mas é feita por secretarias de ciência e tecnologia dos estados, dos municípios, universidades, instituições de pesquisa, ONGs, empresas, meios de comunicação. Quer dizer, todo um conjunto de instituições e de pessoas que participam das atividades da Semana.
O Brasil é um país de proporções continentais. Estar à frente de um evento desse porte deve significar, também, enfrentar todo tipo de problemas e situações...
Um dos grandes problemas é, efetivamente, gerenciar uma organização que cobre o país todo — na Europa nos disseram que o nosso talvez seja o maior do mundo em termos de extensão. Na França, por exemplo, eventos desse tipo têm muito mais história e tradição, mas eles trabalham com um universo de cidades muito menor, com uma região geográfica muito menor, têm instituições espacialmente mais bem distribuídas do que no Brasil. Aqui, nós temos uma desigualdade enorme; uma concentração no Sudeste. Portanto, nossas dificuldades de gerenciar um evento que tenha atividades de Roraima ao Rio Grande do Sul, ao mesmo tempo, não é trivial. Isso faz com que tenhamos dificuldade operacional, além de os recursos serem sempre insuficientes, dada sua dimensão. Outra dificuldade é com as escolas. Nosso objetivo é envolver muito mais as escolas. Mas isso exige uma infra-estrutura. Exige que as secretarias de Educação estaduais e municipais estejam muito ligadas nisso.
Mas é possível notar maior envolvimento das escolas a cada edição?
Tem melhorado ao longo do tempo. Há cidades em que as secretarias estaduais e municipais se integram mais, e isso facilita bastante. Nós temos dificuldade de transportar os estudantes para as tendas que montamos em praça pública, para as atividades dentro das universidades e instituições de pesquisa. É uma dificuldade permanente, que a cada ano tentamos solucionar da melhor maneira possível. E a melhor maneira é ter cada vez mais colaboradores, porque a Semana não é de um governo, nem do governo federal; é a ação de uma sociedade, especialmente dos setores ligados à ciência e tecnologia.
A cada ano é escolhido um tema central para o evento...
Em 2004 fizemos a chamada de olhar para o céu porque havia um eclipse. Tinha a finalidade de valorizar a observação de um fenômeno importante. Em 2005, pegamos como tema a água, que também é uma discussão muito importante, e em 2006 pegamos carona nas comemorações do centenário do vôo do 14-Bis, que é de fundamental importância para a história brasileira, da ciência e da tecnologia, como um pano de fundo para discutir a questão da criatividade e da inovação, que está por trás de todo o trabalho de Santos Dumont, e da ciência em si. A idéia do tema, na verdade, objetiva fazer com que o Brasil inteiro desenvolva atividades sobre ele. Mas todas as atividades de educação e ciência, inclusive as sociais e humanas, têm seu lugar no evento.
A primeira Semana chamou os brasileiros para olharem para o céu e este ano o tema é a Terra. Como isso está sendo desenvolvido?
Este ano escolhemos a Terra pela questão óbvia da importância do tema, pelo fato de a ONU ter definido 2007/2008 como ano internacional do Planeta Terra. Mas nós estamos olhando para a Terra também do céu, como está no próprio cartaz de divulgação do evento, quase como um ser vivo, englobando todas as formas de vida que aqui existem, suas riquezas, sua atmosfera. A idéia é prestar atenção nos grandes problemas da Terra e, por isso, estamos distribuindo uma série de vídeos sobre temas a ela relacionados — mudanças climáticas, desmatamento e tudo mais —, produzidos pela BBC e também nacionais. É um tema central, embora não seja único. Já estamos discutindo o tema para o ano que vem, que precisa, sempre, ser mais geral para poder ter olhares de todas as áreas da ciência.
Quando se fala em ciência e tecnologia, a associação que se faz, geralmente, é com as áreas de exatas e biológicas. Mas também há ciência nas áreas sociais e humanas. Qual é o lugar dessas duas últimas, especialmente, na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia?
Está começando a se criar a consciência que a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia não é só para físico, biólogo, matemático, engenheiro. Estamos envolvendo historiadores — agora com a história da Terra, a Embrapa, que é uma importante instituição de pesquisa de agropecuária, participa muito —, há uma exposição de ciência que discute a sociologia da ciência, a antropologia, a arqueologia, a história. Todos esses aspectos de outras áreas, que não estritamente as chamadas "ciências duras", estão envolvidos. Temos a Terra vista de todos os lados, e também a questão da divisão da terra — oficinas discutirão o solo brasileiro, como ele é distribuído, a questão do desmatamento, da erosão. Estamos fazendo uma cartilha com a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) para distribuir em regiões como Petrópolis, que têm casas construídas em declives, encostas muito íngremes, com risco de desabamento, para orientar as pessoas para não fazer isso ou para se posicionarem em caso de risco de desastres naturais. Não sei dizer, precisamente, onde há participação mais intensa de pessoas envolvidas nas áreas de ciências humanas, mas está distribuído pelo país todo. Mas queremos mais. A cada ano reiteramos o convite à participação dos colegas de história, psicologia, economia, educação, sociologia para que se integrem cada vez mais à Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.
Nota-se na grande imprensa, principalmente, e na televisão brasileira, que há pouco espaço para notícias sobre ciência. Qual é a sua opinião sobre a cobertura da mídia, especialmente sobre as políticas públicas em ciência e tecnologia?
Nunca tivemos problema, durante a Semana, com a cobertura da mídia. Mas a cobertura geral da mídia brasileira sobre ciência é pequena, fraca. Essa é minha opinião pessoal e também a dos brasileiros em geral. Fizemos uma pesquisa recente sobre a cobertura da mídia brasileira em ciência e os brasileiros dizem que ela deixa a desejar. Nós temos algumas iniciativas, mas achamos que o governo, sozinho, não é capaz disso. É preciso haver uma consciência maior dos meios de comunicação, da TV, do rádio, que é um veículo importante, para dar mais espaço à notícias sobre ciência. Estamos, pelo segundo ano, distribuindo um CD para o Brasil inteiro com um programa de rádio voltado para ciência. São programas produzidos por rádios universitárias, o programa "Prosa Rural" da Embrapa, programas de rádios educativas que tocam na questão da ciência. Mas isso é pouco. Precisamos ter uma presença, ao longo do ano, mais constante e de maior qualidade. E não basta fazer um artigo de ciência difícil, que as pessoas não entendam. Não é só um cientista importante escrever no jornal — e isso é importante! —, mas é mais do que isso. Precisamos apresentar a ciência à população. A TV, por exemplo, que é o veículo que mais impacta os brasileiros do ponto de vista da informação, tem raríssimos programas interessantes sobre ciência em horários que a maioria das pessoas possa assistir. O governo, a comunidade científica e os meios de comunicação precisam aprender a fazer programas interessantes. A televisão é um espaço de entretenimento; é importante aprender a fazer melhor, como a Inglaterra já sabe fazer, como o Canadá já sabe fazer. Espero que, com a criação da TV Pública, que está se desenhando, haja uma presença da ciência, da cultura e da educação muito mais intensa na televisão brasileira.
A respeito dessa pesquisa sobre a impressão dos brasileiros sobre a cobertura da mídia em ciência, quais outros dados importantes ela revelou?
Foi uma pesquisa ampla, que o Ministério fez em cooperação com o Museu da Vida, da Fiocruz, com a Academia Brasileira de Ciências e com a cooperação de alguns colegas pesquisadores da Argentina e Inglaterra, que têm tradição nesse tipo de pesquisa. O propósito foi fazer uma pesquisa nacional sobre como os brasileiros vêem a ciência e a tecnologia. Na primeira pergunta, "Você tem muito interesse por temas de ciência e tecnologia?", surpreendentemente ou não, uma boa parcela de brasileiros declara que tem interesse grande. Inclusive, similar ao de Esportes. Mas quando você pergunta se eles assistem a programas, lêem jornal, revista ou ouvem rádio com temas de ciência e tecnologia, o número cai drasticamente. Significa que não estamos ofertando adequadamente. Quando foi questionado se os brasileiros vão a museus de ciências ou participam de atividade de ciência ao longo do ano, o número foi muito baixo em relação à Europa, por exemplo. Uma parcela de 4% declara que visita museus ao longo do ano; na Europa, a média é de 16%, e nos países mais avançados esse número sobe para trinta e tantos. Significa que temos uma deficiência aí — são poucos centros de ciências, mal distribuídos pelo Brasil, o acesso é difícil, as pessoas, às vezes, não têm condições de ir, falta dinheiro. Precisamos ter uma política pública para melhorar isso. Essa pesquisa mostra que os brasileiros sabem que a ciência é importante para sua vida, têm interesse, mas pouca oferta qualificada; e sentem que a ciência e a tecnologia têm cada vez mais importância no mundo moderno. Eles acham que os cientistas têm altíssima credibilidade, mas que a ciência também deve ser submetida a uma maior preocupação ética. E que as grandes decisões devem envolver a população.
No final dos anos 1980 foi realizada uma pesquisa semelhante, que até então era tomada como referência para esse assunto. Comparando as duas, o que mudou e o que se manteve?
Foi em 1986, uma pesquisa feita pelo Museu de Astronomia do CNPq. Nós pegamos algumas questões parecidas, mas algumas caducaram no tempo e queríamos fazer uma pesquisa mais abrangente. Um dado de 1986 que continua preocupante é que os brasileiros em geral (84%) não são capazes de citar uma instituição brasileira de pesquisa importante e também cientistas brasileiros que tenham importância na ciência mundial. Significa que a nossa difusão sobre ciência brasileira está muito fraca.
A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia pode ser considerada o ponto alto do trabalho que o MCT desenvolve, ao longo do ano, pela popularização e difusão científica, através do departamento dirigido pelo senhor. Quais são as principais atividades desenvolvidas fora desse "holofote" nacional?
Uma é estimular e criar museus e centros de ciência pelo Brasil inteiro, onde há uma deficiência clara. Temos também o programa "Ciência Móvel", que é um projeto itinerante com veículos para ir até as periferias das grandes cidades, que começou há dois anos, está em fase de expansão. E a idéia é expandir cada vez mais. Outro é ter uma parceria maior com a mídia para incluir programas sobre ciência na televisão, no rádio e notícias nos jornais. Também temos uma parceria com o MEC para colaborar com as secretarias estaduais e municipais de Educação para melhorar o ensino em ciências. Realizamos algumas atividades em conjunto nesse sentido, como a Olimpíada de Matemática nas escolas públicas, que hoje atinge uma massa enorme de estudantes — mais de 17 milhões em todo o país —, as feiras de ciências que apoiamos e outras atividades e eventos ao longo de todo o ano. Ainda lançamos editais para apoiar projetos de universidades, fundações, instituições de pesquisa e secretarias para fazer divulgação da ciência. Mais um edital será lançado em outubro. Nesse sentido, creio que começamos a construir uma política pública para a popularização da ciência, o que não havia antes. Claro, precisa melhorar muito. Mas já é um primeiro passo importante.
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