Florestan Fernandes (1920-1995)
Semana Nacional de Ciência e Tecnologia - Ciência para o Desenvolvimento Sustentável
Florestan Fernandes nasceu em 22 de julho de 1920, na cidade de São Paulo. Filho de uma imigrante portuguesa, analfabeta e empregada doméstica, teve uma  infância pobre no Brás, morando em pensões e quartos de empregada. Aos 6 anos, para ajudar a mãe, começou a trabalhar como engraxate, ajudante de barbeiro, carregador e balconista de bar. Com grandes dificuldades em conciliar o trabalho com o estudo, parou de estudar no terceiro ano primário.

Na adolescência, fez o curso madureza recuperando em três anos, o que num prazo normal as pessoas aprendem em sete. Disciplinado, cumpriu um plano de estudos que o levou a passar dezoito horas por dia em bibliotecas públicas. Formou-se em Ciências Sociais em 1943, obtendo a licenciatura em Ciências Sociais em 1944. Pós-graduou-se em Sociologia e Antropologia (1945-46) com  mestrado em Ciências Sociais (Antropologia, 1947). Exerceu o magistério superior na Universidade de São Paulo e nas Universidades de Columbia e Yale (EUA) e Toronto (Canadá). Foi doutor “Honoris Causa” da Universidade de Utrecht, Holanda.

Depois do golpe de 64, como professor da USP, por carta, repudiou a humilhação e interrogatórios dos militares,ficando detido três dias. Foi um dos primeiros a protestar contra o novo regime, tornando-se seu crítico ferrenho. Em 1969, foi afastado da USP pelo  AI-5, com aposentadoria compulsória, e exilado no Canadá. Nesse período, longe do Brasil, manteve a intensa atividade acadêmica, lecionando nas universidades Yale e Columbia.

Tornou-se um professor respeitado e sociólogo de projeção internacional. Ao fundar a sociologia crítica no país, Florestan rompeu com a postura dominante até então, que se limitava a descrever o Brasil. Unindo o trabalho acadêmico à atuação na imprensa e na política, inaugurou a perspectiva pioneira de análise marxista no país. Em A revolução burguesa no Brasil, o sociólogo lançou as bases para uma teoria política do autoritarismo extensiva à América Latina, denunciando a inexistência de uma sociedade plenamente democrática por falta de organização autônoma das classes populares. Em sua produção acadêmica, aliou o rigor metodológico à pesquisa empírica e introduziu no Brasil os três clássicos da sociologia -- Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim.

Florestan escreveu 56 trabalhos acadêmicos, publicados no Brasil e no exterior, além de livros de múltipla autoria e de colaboração em jornais e revistas. Seus trabalhos de antropologia, feitos há quarenta anos, são leitura obrigatória até hoje, sendo considerado  autor de pioneiros estudos sobre a questão indígena. Florestan questionou a suposta democracia racial brasileira. Crítico severo do capitalismo, não acreditava que as injustiças e a opressão geradas pela ordem capitalista pudessem ser equacionadas e resolvidas dentro dessa mesma ordem. Foi um permanente militante da luta pela liberdade, democracia da maioria e pela revolução socialista.

Como professor, dedicou-se a formar novas gerações de estudantes, incutindo- lhes a necessidade da formação sólida, do rigor e da disciplina para a investigação científica. Incentivador do trabalho coletivo, reconhecia e aceitava as diferenças, constituindo equipes de trabalho capazes de produção autônoma e de alto nível. Grande defensor da educação pública, sempre esteve próximo dos movimentos sociais, tendo sido parlamentar por dois mandatos (1987-90 e 1991-94) pelo Partido dos Trabalhadores, ao qual esteve ligado desde a fundação.

Florestan foi um homem de princípios e convicções, generoso e plural. Intelectual erudito e homem do povo, dotado de enorme simplicidade. Foi casado com dona Míriam Rodrigues Fernandes, com quem teve cinco filhas e um filho.Morreu em 10 de agosto de 1995, aos 75 anos de idade, vítima de um transplante de fígado mal sucedido.

Obras de Florestan Fernandes

A Etnologia e a Sociologia no Brasil (São Paulo: Anhambi, 1958)
Mudanças Sociais no Brasil (São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960)
Folclore e Mudança Social na Cidade de São Paulo (São Paulo: Anhambi, 1961)
A Sociologia numa Era de Revolução Social (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1963
A Integração do Negro na Sociedade de Classes (São Paulo: Dominus-USP, 1965);
Educação e Sociedade no Brasil (São Paulo: Dominus-USP, 1966)
Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento (Rio de Janeiro: Zahar, 1968)
The Latin American in Residence Lectures (Toronto: University of Toronto, 1969-70)
O Negro no Mundo dos Brancos (São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1972)
A Revolução Burguesa no Brasil. Ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
 A Integração do Negro na Sociedade de Classes. São Paulo: Dominus/Edusp, 1965, 2v.
Capitalismo Dependente e Classes Sociais na América Latina (Rio de Janeiro: Zahar, 1973)
A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica (Rio de Janeiro: Zahar, 1974)
Circuito Fechado: quatro ensaios sobre o “poder institucional” (São Paulo: Hucitec, 1975)
“A Revolução Burguesa no Brasil em Questão”, Contexto (São Paulo: ano I, n° 4, 1977,  pp. 141-8)
“Defesa da Escola Pública e sua significação”. Anhembi (São Paulo, ano XI, nº 128, vol. XLIII, julho, 1961).
A Sociologia no Brasil (Petrópolis: Vozes, 1977)
A Condição do Sociólogo (São Paulo: Hucitec, 1978)
Da Guerrilha ao Socialismo: a Revolução Cubana (São Paulo: T.A. Queiroz, 1979)
Apontamentos sobre a “Teoria do Autoritarismo” (São Paulo: Hucitec, 1979)
 A Natureza Sociológica da Sociologia (São Paulo: Ática, 1980)
Poder e Contrapoder na América Latina (Rio de Janeiro: Zahar, 1981)
O processo constituinte: pronunciamentos e debates (1988)
A Constituição inacabada: vias históricas e significado (1989)
 Pensamento e ação: O PT e os rumos do Socialismo (1989)
 A transição prolongada: o período pós-constitucional (1990)
 Parlamentarismo: contexto e perspectivas  (1992)
 Democracia e desenvolvimento: a transformação da perifetria e o capitalismo
 monopolista atual (1994)
 A contestação necessária (1995)
 Em busca do socialismo: últimos textos & outros contextos(1995)
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